Confira abaixo a íntegra da matéria postada pelo O Globo. Link: Polilaminina: liberada para estudo, droga pode ser totalmente produzida no país
Candidata a tratamento para pacientes que sofreram lesão
medular e perda de movimentos, a polilaminina poderá ser totalmente produzida
no Brasil, segundo a farmacêutica Cristália, responsável por seu
desenvolvimento em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro
(UFRJ).
Neste momento, as doses que irão compor o estudo de fase 1 —
que avaliará sua segurança de uso, conforme liberado pela Agência Nacional de
Vigilância Sanitária (Anvisa) — e mais as aplicações liberadas mediante decisão
judicial, já podem ser totalmente produzidas no país, após doações de placentas
coletadas em hospitais de Itapira, no interior paulista. O medicamento, vale
dizer, é feito de uma proteína isolada da placenta, chamada de laminina.
— Durante o pré-natal, as parturientes tomam conhecimento do
projeto. Quem apresenta é o obstetra que as acompanha e elas decidem se
gostariam de doar. Se sim, o hospital recolhe a placenta no momento do parto,
acondiciona ela conforme treinamos e há a coleta para dar início ao processo de
produção — explica Rogério Almeida, vice-presidente do laboratório Cristália. —
Depois disso são feitas testagens para vírus e purificações. O tempo de
preparação vai de dois a 3 meses. Esse é um produto 100% brasileiro e sempre
será.
A projeção da Cristália é que a produção brasileira se
mantenha mesmo após ocorrer um eventual registro (como é chamada a aprovação
total) da Anvisa. Enquanto o estudo não começa — ainda faltam algumas partes
documentais para dar início à busca de voluntários — o Brasil se vê em meio a
um cenário paralelo de uso, em que pacientes entram na Justiça para ter acesso
ao medicamento, de maneira emergencial. A pressa é motivada pela necessidade de
utilizar o fármaco ainda nos primeiros dias de lesão.
De acordo com o próprio laboratório, ao menos 14 pedidos do
tipo foram protocolados, com nove aplicações já feitas no total. Em todos os
casos, a farmacêutica teve de entregar as doses para o paciente sem cobrar o
custo de produção. Essas aplicações, é importante dizer, não estão no âmbito do
estudo aprovado pela Anvisa e são acompanhadas apenas à distância pelos
desenvolvedores do fármaco, que não têm conexão com os pacientes. Ou seja,
relatos de efeitos adversos relacionados ao uso ou a evolução desses pacientes
não são acompanhados por pesquisadores e, portanto, não são considerados como
parte do estudo do fármaco, que ainda precisa passar por fases que demonstram o
quanto ele é tolerável e eficiente.
— Em casos assim, acompanhamos o caso de maneira mais
passiva. Quando falamos de estudo clínico, porém, temos um protocolo ocorrendo
dentro de centros qualificados a longo prazo, para que possamos avaliar o
desfecho (do uso do fármaco)— pondera Rogério, da Cristália.
Percurso
O estudo pelo qual a polilaminina passará é a primeira
parada de ao menos três etapas até chegar à aprovação da Anvisa. Neste momento,
o medicamento será avaliado em cinco pacientes para identificar sua segurança:
ou seja, se seu uso não traz risco à saúde de quem recebe. Mais adiante serão
avaliadas sua eficiência em grupos menores e maiores, tudo sob acompanhamento
constante de pesquisadores e com aval de comitês de ética e sanitário. A ideia
é medir o avanço dos pacientes aos seis meses de uso e, depois, um ano.
— No estudo, vamos buscar pacientes que apresentam
praticamente só a fratura de coluna, sem outras lesões graves associadas. Eles
têm que chegar ao hospital com menos de 72 horas em condição de ser operado,
não são casos que aparecem todos os dias. E devem ser pacientes com lesão
medular completa — explica Alexandre Fogaça Cristante, professor da Faculdade
de Medicina da USP e que será investigador principal da pesquisa, feita por
especialistas sem vínculo aos desenvolvedores. — É claro que devemos ter esperança,
mas devemos ter muito critério.
A aplicação do medicamento dentro do estudo ocorrerá em uma
cirurgia em que, geralmente, todo paciente que sofre lesão medular é submetido.
Trata-se de uma intervenção para tirar fragmentos de ossos que eventualmente
entraram no canal da coluna, entre outros procedimentos.
Otimismo
A chegada da polilaminina às tão esperadas fases clínicas
ocorre 25 anos após o início dos estudos por parte da pesquisadora Tatiana
Sampaio, chefe do Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular, do Instituto
de Ciências Biomédicas da UFRJ, e que também faz parte do comitê da
farmacêutica Cristália. Esse grupo colaborará com o dossiê a ser enviado para a
Anvisa ao longo do estudo. O uso em humanos do medicamento já ocorreu no país
entre 2018 e 2021, dentro de um estudo clínico acadêmico, com resultados que
despertam otimismo. Nessa modalidade acadêmica, não é preciso aval da Anvisa,
apenas de comitês de ética.
— Quando realizamos o clínico acadêmico, a gente usou uma
droga feita em laboratório. Uma coisa em pequena escala, apenas o princípio
ativo do medicamento — conta Tatiana. — Como usamos em pouquíssimos pacientes
(oito pessoas), não é possível ainda dizer qual o prazo em que os pacientes
devem começar a reagir ao medicamento. Só quando tivermos mil (aplicações), por
exemplo, vamos saber dizer quais tipos de lesão respondem rápido e quais
demoram mais.