Confira abaixo a íntegra da matéria postada pela Folha de São Paulo. Link: https://www1.folha.uol.com.br/autores/jairo-marques.shtml
"Acordei de madrugada com o pensamento de que conseguiria mexer
meu pé. Minha esposa dormia ao lado da minha maca, aqui no hospital. Pensei,
vou mandar um estímulo para baixo, vou mexer meu pé. E não foi um
movimentinho, não. Eu mexi o meu pé direito por inteiro. Eu fiz a contração."
O relato é de Diogo Barros Brollo, 35, que sofreu lesão medular total, de acordo
com a equipe médica que o atendeu, após uma queda de um prédio durante o
trabalho, em Friburgo (RJ). Ele ficou paraplégico, sem movimentos e
sensibilidade da cintura para baixo.
Há um mês, por ordem judicial, ele recebeu aplicação da polilaminina, substância ainda em fase de testes clínicos na ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), que
pode ser capaz de regenerar lesões na medula espinhal, de acordo com um
grupo de pesquisadores da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro),
liderado pela bióloga Tatiana Coelho de Sampaio.
Duas semanas após a aplicação, ele começou a retomar sensibilidades em
partes das pernas e a conseguir mexer o pé, contrair a coxa e também a
musculatura do esfincter. A constatação é narrada por ele mesmo e foi
documentada pela equipe científica da bióloga Tatiana.
"Não se trata de impulso involuntário. Eu mexo o meu pé quando quero.
Consigo segurar minha perna dobrada, o que era impossível até dias atrás.
Estou tendo contração muscular voluntária", afirma Diogo.
Durante a pesquisa científica, com autorização da Conep (Comissão Nacional
de Ética em Pesquisa), a polilaminina foi injetada em animais e em seis
voluntários. Um deles, Bruno Drummond de Freitas, 31, diagnosticado com
tetraplegia, voltou a andar.
São raros os casos de pessoas com lesões medulares completas que
conseguiram retomar mobilidade e sensação tátil. Médicos fisiatras afirmam
que, em alguns casos, após o chamado trauma medular, quando a região
desincha, é possível haver alguma melhora, a depender do dano.
Diogo, que é vidraceiro e pai de três meninas, diz estar muito grato. "Dou
graças a Deus de ter tido acesso à aplicação. Tive uma grande chance, uma grande oportunidade. É muito bom ver que o estudo da doutora Tatiana está
dando certo, está caminhando para ser liberado para outras pessoas."
De acordo com a equipe de fisioterapia do HECI (Hospital Evangélico de
Cachoeiro do Itapemirim), onde está internado para reabilitação Luiz
Fernando Mozer 37, que também recebeu a
aplicação há pouco mais de duas semanas, também por ordem judicial, após
ter uma lesão completa em um acidente de moto, a recuperação tem sido
"significativa".
"Mesmo diante de um quadro complexo, o paciente apresenta evolução
gradativa, com registro recente de contração voluntária em membro inferior,
considerado um ganho funcional significativo para o estágio atual da
recuperação", informa a equipe do hospital, por nota.
Ainda segundo os especialistas, "a reabilitação segue com foco no controle de
tronco, fortalecimento muscular, melhora da sensibilidade e progressão da
independência funcional".
"O caso representa uma experiência inovadora e desafiadora, que reforça o
compromisso da instituição com a ciência, a reabilitação baseada em
evidências e a crença no potencial de recuperação dos pacientes, destacando a
importância do trabalho em equipe e da atuação precoce no cuidado às lesões
medulares", diz o texto.
Uma mulher de 35 anos que teve lesão gravíssima após acidente de carro, que
recebeu a substância por ordem judicial, em Governador Valadares (MG),
também está registrando melhoras, segundo a família e pesquisadores da
equipe de Tatiana. Ela tem sensações de toque nas pernas e consegue contrair a
coxa.
Os testes oficiais da polilaminina, que verificam a segurança do fármaco, só
poderão ser realizados com voluntários com lesões medulares completas e
agudas —ocorridas em no máximo 72 horas, que têm maior chance de
recuperação.
LIMINARES NA JUSTIÇA PARA A APLICAÇÃO JÁ SÃO DEZ
Mais seis decisões judiciais mandam o laboratório Cristália, o grupo de
pesquisadores da UFRJ e o poder público viabilizarem a aplicação da
polilaminina em pessoas que tiveram lesões medulares após traumas. Até
agora, ao todo, são dez, sendo cinco já cumpridas.
Quatro das liminares foram ou devem ainda ser cumpridas nesta semana. As
cirurgias já ocorreram em Caraguatatuba (SP) e Vitória (ES), e devem acontecer
em Maringá (PR) e em Salvador (BA) nos próximos dias.
O laboratório Cristália, apoiador financeiro da pesquisa e quem vai produzir o
fármaco, caso ele seja futuramente aprovado pela Anvisa, informou que vai
seguir cumprindo as ordens judiciais, que passam por aval da agência.
Até agora, a empresa tem absorvido os custos das aplicações. A substância,
caso se torne um medicamento aprovado, poderá ser fornecida pelo SUS
(Sistema Único de Saúde), de acordo com conversas já abertas entre a Cristália
e o Ministério da Saúde.